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Notícia

Reflexões de um cachorro louco: Microsoft e o TCO em nações em desenvolvimento

Publicado em 07/10/2008 às 10:53

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Por Jon “maddog” Hall

Este é um post bem comprido. Eu fiquei em dúvida se seria melhor postá-lo aqui ou na forma de um artigo para a Linux Magazine. Os editores disseram que, devido à temporalidade do assunto, seria melhor colocá-lo no blog. Para aqueles que não quiserem ler até o final, o “resumo executivo” é:

A Microsoft admitiu que o TCO (Custo Total de Propriedade) para estudantes em países em desenvolvimento é aproximadamente o mesmo entre seus produtos e o Software Livre. Eles ainda admitem que os custos iniciais do TCO para hardware e software são menores no Linux, e que o pessoal técnico em Linux em nações em desenvolvimento recebem salários superiores aos de suas contrapartes na Microsoft, devido à escassez.

Creio que isso peça um maior uso de Software Livre em universidades e escolas secundárias para ajudar a aumentar o número de profissionais de Software Livre altamente treinados e empregados localmente, para reduzir essa escassez e para diminuir os problemas de desequilíbrio decorrentes do pagamento de royalties de software para fora do país.

Agora, a análise propriamente dita:

A Microsoft liberou recentemete um estudo sobre o “Custo Total de Propriedade” para escolas com grande número de computadores em países em desenvolvimento. Tenho visto esses estudos de “TCO” há uns 20 anos, talvez 30, e não consigo me lembrar de quando eles começaram.

Ultimamente, tenho visto esses relatórios tentando me convencer de que o software proprietário é, de alguma forma, mais barato que o Software Livre. Normalmente eu tenho um grande problema com a maioria desses relatórios por algum motivo, pois eles não vão tão fundo quanto deveria um estudo real de TCO. Normalmente eu presto pouca atenção a eles, mas esse último foi mencionado no blog de um “observador da Microsoft” nacionalmente creditado, e depois de ler algumas citações de algumas pessoas da Microsoft em seu blog, decidi eu mesmo conferir.

O estudo mais recente, feito por uma empresa chamada “Vital Wave Consulting” (publicado em 15 de agosto de 2008 e financiado pela Microsoft, depois postado no blog “Unlimited Potential” (UP) da Microsoft), foi diferente. Eles fizeram um ótimo trabalho de justificar o uso de computadores no ensino, e particularmente em países em desenvolvimento, citando diversos outros relatórios. Eles fizeram um estudo bastante abrangente e juntaram várias citações sobre TCO. A Microsoft pensou tanto nesse relatório que no blog escrito por James Utzschneider, gerente geral de marketing e comunicação do programa “Unlimited Potential” da Microsoft, ele reconheceu que o custo inicial dos softwares e hardwares para a Microsoft era “um pouco maior” (slightly higher, no original) que o do Linux e Software Livre.

O sr. Utzschneider continuou elogiando o estudo, que afirmou que devido aos maiores salários dos administradores de sistemas livres e de outros profissionais de suporte em SL em áreas como China e América do Sul, o TCO ao longo de um período de cinco anos para soluções Windows e Linux era “aproximadamente igual”. O único choque registrado pelo sr. Utzschneider foi que o custo por computador ao longo de cinco anos, tanto para o Windows quanto para o Linux, foi de US$ 2.700, e sugeriu que essa seria uma área que se beneficiaria da existência de servidores Microsoft nas escolas, para reduzir o custo de administração.

Agora eu acho esse “estudo” interessante de várias formas. Primeiro, achei que, de todos os estudos sobre TCO que a Microsoft já financiou, eles certamente poderiam criar uma história melhor que “aproximadamente igual” com relação ao TCO das duas soluções. Ainda assim, foi legal ver que a Microsoft afirmou publicamente que o TCO era “aproximadamente igual” e eu fiquei muito feliz pelo estudo da Vital Wave Consulting ter chegado a essa afirmação de forma independente, apesar do estudo ter sido financiado pela Microsoft.

A Vital Wave Consulting espremeu um pouco os custos de royalty da Microsoft, dizendo que o custo do software era de “apenas” dois por cento do TCO. Porém, 2% de US$ 2.700 é US$ 54, ou US$ 11 por ano. E a Vital Wave estava certa ao dizer que é um número pequeno comparado à quantia total. Entretanto, conforme eu me aprofundei nos estudos, pensei nesse dinheiro de uma forma diferente. Os royalties foram de US$ 25 por computador com o Microsoft Windows Starter Edition, e US$ 12,50 por computador com o Microsoft Productivity Suite no período de cinco anos. Eles também mencionaram uma taxa anual de “antivírus” necessária para o Windows, mas (admitiram) desnecessária no Linux. Isso significa US$ 43,50 por computador que saem do país em direção à Microsoft ou a uma empresa de antivírus e não precisam ser pagos por usuários de SL. Esses preços são a parte principal dos motivos citados para o “Linux ser mais barato a princípio”.

Mas o estudo não mencionou outros programas adicionais que os estudantes podem querer usar. Adobe Photoshop? Banco de dados SQL? Ferramentas de edição de vídeo e áudio? Ferramentas de gerenciamento de projetos? Isso é extra ou está incluído nos US$ 43,50? E o que acontece quando os estudantes querem usar essas ferramentas em casa? Eles estã ocobertos pela licença da escola? O que acontece se seus pais quiserem usar o computador do estudante em casa? Eles pode, ou isso constitui uma violação da licença? Não seria uma violação se o estudante estivesse usando Software Livre tanto na escola quanto em casa.

Como eu disse, não acho que US$ 43,50 seja muito dinheiro, mas também me lembro de todos aqueles anúncios das Agências Mundiais de Saúde dizendo quantas crianças poderiam ser inoculadas com apenas US$ 1 por mês, e a troca dos US$ 43,50 vezes os 1.600 OLPCs que estão sendo enviados todos os dias com Linux para o Uruguai, e serão enviados a cada dia no ano que vem. Rapidamente aqueles US$ 43,50 por computador se transformam em “dinheiro de verdade”.

Mas quando começamos a olhar para o custo REAL, o TCO começa a mudar rapidamente.

Conforme eu investigava os relatórios, havia algumas suposições estranhas. O estudo tentou comaprar o custo de um computador “mainstream” ao de um novo “de baixo custo”, “de ultra-baixo custo” e ”de segunda mão” ao longo de cinco anos. Mas trataram o fim dos cinco anos como se tudo chegasse ao fim, e depois desse período de cinco anos tudo precisasse ser substituído, atualizado e um novo período de cinco anos começasse. É aí que a maior parte do estudo cai por terra. O TCO não pára depois de cinco anos.

Como exemplo, eles citam o custo do computador “de segunda mão” como US$ 254, com uma vida útil de três anos. A princípio, não consegui ver se eles obtiveram o computador como doação, ou para quem os US$ 254 foram pagos. Nos países que já visitei, um computador de segunda mão geralmente é doado por um banco ou outra entidade que esteja atualizando seus sistemas. Em algumas escolas (como a que visitei em Curitiba, Brasil), os alunos desmontaram as máquinas, separavam os componentes e as montavam novamente. Discos rígidos quebrados eram descartados e substituídos por outros obtidos dos computadores sobressalentes. Eles detectavam as memórias defeituosas, e as máquinas com menores quantidades de memória recebiam maiores quantidades. Os alunos dessa escola aprenderam quase tanto com essa atividade quanto em seus estudos regulares.

Ou, se os alunos não fizessem esse trabalho de reconfiguração, talvez ele fosse feito por uma organização de caridade como eu encontrei na Colômbia, que ensinava técnicas de manutenção de computadores a seus alunos e usava essa oportunidade para recuperar e estaurar computadores doados para outras escolas e pessoas mais pobres da comunidade. Porém, o hardware certamente não custou US$ 254 para o usuário final.

Lendo mais adiante, percebi que o custo de US$ 254 veio de computadores profissionalmente “recuperados”. Incluídos nesses US$ 254 estava uma “garantia abrangente de um ano no local” e apesar de eu relutar em pensar nesse tipo de contrato para uma escola rural, com somente cinco alunos e sem eletricidade, preciso lembrar que essa recuperação seria geralmente feita por um fornecedor local, e não algum de outro país. O trabalho local cria vagas locais e salários locais, importantes para governos que estejam financiando a educação. Eu nunca descobri a idade dos “computadores de segunda mão”, apenas que eles eram descritos como “Pentium 4”.

Em segundo lugar, a suposição de que o ciclo de vida era de três anos para o equipamento antigo e de cinco anos para o computador “mainstream” também não parece certa. Se você supuser que o equipamento “de segunda mão” tem uma vida de três anos pela frente e depois se torna totalmente “obsoleto” e substituído, então, depois do fim do período de cinco anos, o computador “de segunda mão” ainda tem um ano de vida útil. Dois períodos de três anos totalizam seis anos, não cinco, enquanto o computador “mainstream” se torna totalmente obsoleto depois de cinco anos, segundo o estudo, e espera-se que ele não tenha nenhuma vida útil no futuro.

Outra suposição é de que o computador de ultra-baixo custo tem uma vida útil de três anos. Computadores de ultra-baixo custo não existem há muito tempo, mas o que eu já percebi é que eles têm dois aspectos em comum:

  • ausência de ventoinha,
  • ausência de disco.

Do meu ponto de vista, equipamentos eletrônicos sem partes móveis parecem durar mais tempo do que os que possuem partes móveis. Meu aparelho de som, meu rádio e minha TV funcionam há 20 anos. Os discos do meu computador, assim como as ventoinhas, duram tempos muito menores. Em condições de maresia (a bordo de um barco ou numa ilha), ventoinhas e discos duram ainda menos. Um amigo me disse que o tempo de vida de uma ventoinha perto do mar é de aproximadamente um ano e meio. Depois, a vantoinha pára e o processador queima.

Então, posso supor que a vidade um sistema de custo ultra-baixo seja pelo menos tão longa quanto a de um sistema desktop (cinco anos), supondo que seja usado software adequado (mais sobre “longevidade de software” abaixo).

Em seguida, as configurações listadas. O computador “mainstream” foi listado como um “PC servidor e cliente”, que eles pretendiam que servisse nas duas categorias. Por outro lado, ele era listado com “apenas” 2 GB de memória principal e um processador Pentium dual-core com disco de 320 GB. Pode-se enxergar isso de duas formas: memória insuficiente para o Vista ou memória e disco exagerados para o Linux. O computador “de baixo custo”, embora novo, ainda era descrito como “PC cliente e servidor”, mas possuía somente 1 GB de memória (e conservava o disco de 320 GB e o processador Pentium dual-core). Na verdade, a única diferença listada no estudo entre o computador “mainstream” e o “de baixo custo” era o 1 GB de memória e aproximadamente US$ 250 no custo total do hardware. Imagino que se trate de memória RAM muito cara, a US$ 250 por gigabyte.

Por outro lado, o computador “de segunda mão” tinha um processador Pentium 4 e somente 512 MB de RAM. No entanto, mais interessante ainda é o espaço de apenas 40-80 GB de espaço em disco. Já consigo começar a enxergar o motivo real para o computador “de segunda mão” durar apenas três anos. Nos três anos, você conseguirá encher os 40-80 GB de espaço em disco com músicas baixadas (estou só sendo sarcástico, amigos). Obviamente, se eu tivesse que pagar US@ 125 por meio GB de RAM, eu pensaria duas vezes antes de atualizar meu computador “de segunda mão” para 1 GB.

Outro ponto interessante é que o computador “de ultra-baixo custo” também era descrito como um “cliente e servidor laptop”. Estranho. Ele é descrito como um “mini-laptop”, tem um x86 rodando a menos de 1 GHz e apenas 512 MB de memória, com um cartão Flash de 2 GB para armazenamento. Ele também usa “redes mesh sem fio” enquanto todos os outros sistemas descritos usam Ethernet. A maioria dos “mini-laptops” que já vi têm tanto redes com fio quanto sem fio, mas eu não pensaria em usá-los como servidores para nada. Acho que eu simplesmente não gosto de viver perigosamente.

Havia alguns outros pontos que eu percebi no estudo. Apesar dos custos de eletricidade terem sido mencionados para rodar os sistemas, e a necessidade de ar-condicionado para os laboratórios de computadores tenha sido mencionada, acredito que o relatório foi ingênuo em várias áreas:

Primeiro, a maioria das áreas rurais citadas pelo estudo jamais terão ar-condicionado. Ponto. Conheco locais em vários países que simplesmente não têm energia elétrica, e os planos de entregar-lhes computadores consistem em painéis solares e geradores eólicos. A Inveneo, uma empresa de São Francisco, EUA, com vasta experincia em instalação de sistemas telefônicos de baixa energia na África, freqüentemente conta a história de como os idosos das tribos preferem uma bicicleta com um alternador em vez de um painel solar porque “ela é mais barata, mais fácil de consertar, mais fácil e rápida para obter componentes sobressalentes e podemos dar um emprego a quem pedala a bicicleta”. Apesar de alguém poder pedalar uma bicicleta por algumas horas para carregar alguns laptops, eles precisariam de pernas de aço para energizar um ar-condicionado para uma sala com 16 computadores “mainstream”.

Segundo, enquanto o estudo reconheceu que eletricidade “externa” (ou seja, gerada por geradores e outras fontes “exóticas” de energia) é mais cara que a eletricidade “comum”, ele relegou a questão a “áreas remotas da África”. Eu conheço várias escolas em diversos países em desenvolvimento que estão fora da rede de transmissão elétrica e a geração de eletricidade é muito cara. Também conheço escolas no norte do Canadá, no oeste dos EUA, em áreas atingidas pelo furacão Katrina, Bagdá e monastérios budistas (assim como alunos em chalés, veículos recreativos e barcos) que usam eletricidade “externa” bem cara. Apesar de admitir que estudantes em chalés, veículos recreativos e barcos não são comuns, essas pessoas também precisam ser consideradas para a educação.

Terceiro, nas áreas equatoriais servidas pela rede elétrica (e com ar-condicionado), o custo elétrico deve ser contado em dobro: uma vez para energizar os computadores e outra para resfriá-los. Sem isso, ou sem sistemas especialmente fabricados, haverá uma taxa de falhas muito maior devido ao calor.

O estudo também fala sobre fornecer no-breaks para as salas de aula. Ele entra em detalhes sobre os custos do sistema de no-break, suas baterias e sua substituição para fornecer 1-2 horas de “becape de energia” para laptops. Porém, não sei sobre o seu laptop, mas o meu tem baterias embutidas que o sustentam por até três horas. Acrescentar um no-break para fornecer energia ao laptop não é exatamente a minha primeira prioridade para o TCO.

O no-break especificado no estudo custa US$ 831 para um UPS mínimo para ambiente urbano, e se você estiver numa área rural usando computadores “mainstream”, você gastará US$ 3.200 só no UPS para 16 computadores. Eu garanto que o ar-condicionado citado acima vai gastar essas baterias do UPS bem rápido.

Laptops não precisam de no-break, mas se precisassem, o no-break em países emergentes provavelmente seria feito de baterias de carro antigas operando a 12 volts e carregadas com um alternador de 12 volts, um painel solar e gerador eólico.

Com toda essa concentração em algo tão obscuro quanto sistemas de no-break, você imaginaria que o relatório também discutiria o fato de que a maioria dos softwares proprietários não suporta o idioma nativo de muitos países em desenvolvimento. Agora alguns fornecedores são razoavelmente bons quanto ao suporte dos principais idiomas do mundo. O site da própria Microsoft diz que eles suportam 17 idiomas no Windows 2000 (provavelmente mais, porque eles listam suporte para “Europa Ocidental” e eu acho que essa área requer mais de um idioma, assim como “Europa Central”). A Microsoft listou 91 idiomas nos Windows XP e 2003 (nos quais eles parecem ter ido na direção oposta, incluindo nessas 91 seis idiomas franceses diferentes, 13 tipos de inglês e 19 diferentes línguas espanholas). Não quero insinuar que a Microsoft esteja “inflacionando” sua lista de idiomas --- acredito que os dialetos de todos esses importantes idiomas podem ser diferentes, mas é curioso que “Europa Ocidental” parecesse suficiente para o Windows 2000.

No Ubuntu 7.04, eram suportadas 127 línguas diferentes. Inglês era listado apenas uma, assim como espanhol e francês.

Os dois grupos provavelmente avançaram no suporte a idiomas (a lista da Microsoft foi atualizada em dezembro de 2007), mas acho que compõem uma imagem interessante.

O verdadeiro ponto é que todas as ferramentas necessárias para suporte a idiomas estão nas mãos do usuário, no caso do Software Livreo. O suporte a novos idiomas em produtos da Microsoft estão nas mãos da Microsoft. Num encontro em agosto de 2007 na Etiópia, a Microsoft orgulhosamente anunciou que teria suporte a Amhárico, uma das línguas da Etiópia até o final de 2008. Meu sistema Ubuntu 7.04 já tem esse idioma.

O custo do software no estudo sobre TCO foi, obviamente, baseado em licenças especiais que a Microsoft cedeu para as escolas. E o estudo foi cuidadoso em esclarecer que essas licenças foram cedidas perpetuamente para as escolas. Isso é bom, já que a EULA da licença OEM da Microsoft para novos computadores normalmente não permite que o software seja transferido para computadores quando eles são comprados de segunda mão.

Por outro lado, nada foi dito sobre a questão de se ter de atualizar o hardware após três anos porque a Microsoft não suportaria mais o software usado no início dos cinco anos do estudo. Digamos que você tenha comprado o Windows XP no ano passado. O computador que você comprou roda o XP direito, mas talvez você tenha comprado os “computadores de segunda mão”, aqueles com apenas 512 MB de RAM (Bill Gates não disse que 640 KB eram suficientes para qualquer um? Mas voltando...). Agora você vai comprar um computador “de segunda mão” e descobre que ele não é suportado pelo XP. Na verdade, ele só é suportado pelo Vista... E precisa de pelo menos 2 GB de memória.

OU na metade do período de cinco anos a Microsoft decide não suportar mais o XP. Nada de atualizações de software, nenhum patch de segurança. Agora você realmente precisa mudar para o Vista. Quanto via custar atualizar o hardware? Você consegue dizer “compatível com DRM”? Quais os custos da atualização e do treinamento necessários?

Quando você não possui o seu software, você não está no controle. Falta de controle do software é um dos “custos ocultos” jamais mencionados no estudo.

A outra suposição feita pelo relatório é a de que ao final de cinco anos o computador “mainstream” não tem mais valor. Isso pode ser verdade se tentarmos vendê-lo a alguém que precise adquirir softwares para substituir os já instalados. O custo do software proprietário comercial pode ser de centenas, senão milhares de dólares, tornando-o pouco prática a compra do equipamento usado por qualquer pessoa, a menos que pretendam usar software pirata, ou se forem utilizar Software Livre e de Código Aberto.

A última falha técnica que encontrei no estudo foi ele parecer ter ignorado completamente a obra-prima do “laboratório educacional” do Software Livre, o Linux Terminal Server Project (LTSP).

O LTSP reduz os custos tradicionais de hardware fazendo a maior parte do trabalho no sistema do servidor. Os clientes podem ser configurados com memória mínima e poder de processamento mínimo. Os clientes, em sua maioria, não usam discos (às vezes um pequeno disco removível é instalado nos clientes) para que a manutenção do software seja toda feita no servidor. Como as necessidades computacionais e a energia são depositadas no servidor compartilhado, o custo geral do hardware cai dramaticamente, mesmo para hardware novo. Se os clientes não tiverem discos, até mesmo hardware “de segunda mão” tem uma vida útil bem mais longa que três anos.

Agora chegamos aos verdadeiros diferenciais desse estudo. Enquanto ele admite que o custo inicial do Linux é menor (mesmo sem os requisitos de hardware inferiores do sistema LTSP ou a reutilização de hardware doado), eles dizem que o TCO ao longo de cinco anos é maior devido a “custos mais altos do suporte a longo prazo”, um resultado de salários maiores para o pessoal técnico mais escasso do Linux.

Citando consistentemente um custo mais alto do suporte técnico devido à falta de pessoa treinado para trabalhar com Software Livre, o relatório consegue criar um estudo de TCO que mostra (admitido pela própria Microsoft) que os custos são “quase iguais”.

Esse é o ponto realmente importante:

Com o Software Livre, o dinheiro pago pelo suporte local se mantém no ambiente local. Os royalties pagos por software Microsoft, embora baixos, fluem para fora do ambiente local e para as mãos da Microsoft.

O dinheiro local pago como salários mais altos fornece renda para os trabalhadores, e pode ser usado para comprar comida local, habitação local e pagar taxas locais para pessoas locais.

Os profissionais locais do Software Livre podem pedir salários mais altos porque não apenas instalam e integram o software, como também podem alterá-lo de acordo com as necessidades do cliente. Eles não dependem de uma entidade estrangeira para fazerem o software realizar o que precisam.

Trabalhando com Software Livre, os profissionais de Software livre constroem seus conhecimentos dentro da economia do país. Eles produzem software como função de suas vidas profissionais, e contribuem de volta para a comunidade do Software Livre em geral. Esse software passa a ficar disponível para qualquer um no país (e até fora dele), não somente a comunidade educacional. Isso alavanca outras indústrias e tecnologias para serem desenvolvidas dentro do país.

Quando os alunos são ensinados nas escolas primárias, secundárias e universidades a usar software proprietário para resolver seus problemas, eles naturalmente gravitam em direção ao software proprietário conforme se forma. Os professores só conhecem o software proprietário e só ensinam software proprietário. Naturalmente, o número de profissionais de software que conhecem o SL é menor, e isso demanda um nível salarial mais alto.

Mas se quebrarmos o ciclo e começarmos a ensinar com Software Livre hoje, começarmos a ensinar como desenvolver Software Livre hoje, em pouco tempo (dois ou três anos) teremos a força de trabalho que fornecerá suporte sem a escassez que aumenta artificialmente o custo. Então, conforme admite esse relatório patrocinado e citado pela Microsoft, oTCO será menor para o Software Livre. Começar isso hoje vai requerer que os legisladores e professores que enxerguem longe e não estejam preocupados somente com os próximos dois, três ou quatro anos. Ah, espere: esse foi um estudo de TCO para cinco anos.

Ou então, vai precisar que os legisladores e educadores admitam para os alunos que estes estão sendo treinados para trabalhos com salário mais baixos fazendo instalações de software Microsoft. Vai precisar que os legisladores e educadores digam aos empregadores que eles vêm ensinando tópicos a seus alunos que aumentam o TCO (segundo a admissão da própria Microsoft).

Todo ano, vou ao Brasil a um evento chamado FISL. Lá, encontro mais de 7 mil entusiastas de Software Livre (a maioria nos ensinos médio e superior) que adorarão saber que receberão mais dinheiro do que seus equivalentes da Microsoft quando se formarem. Mal posso esperar para contar a eles.

Claro, também achei interessante que o relatório da Vital Wave Consulting foi marcado como:

“Vital Wave Consulting, Inc. Confidential and Proprietary. Do not copy or send it to third-parties in whole or in part” (Vital Wave Consulting, Inc. Confidencial e Proprietário. Não copie nem envie para terceiros, no todo ou em parte)

e quando fui procurar o posto do blog UP, ele havia desaparecido misteriosamente. Felizmente, a Microsoft ainda tinha o relatório em sua área de downloads, então eu aidna consegui ler e analisá-lo. “Não copie nem envie para terceiros...” — a Microsoft estava me incentivando a piratear o estudo da Vital Wave? Ou eles estão mantendo-o privado para colocarem-no diretamente nas mãos dos legisladores de países em desenvolvimento para tentar convencê-los de que o custo de seu software é insignificante para o TCO? Aqui está o link para você conferir independentemente. É melhor se apressar antes que a Microsoft também elimine esse link:

http://download.microsoft.com/download/2/0/a/20ac945c-34d0-4a60-8245-f80e80fe954f/Vital_Wave_Consulting_Affordable_Computing_TCO11June08.pdf

Em breve vou dizer aqui também por que o TCO não é o que deve ser considerado para empresas ou para pessoas, e vou dizer por que os profissionais do Software Livre sempre terão maior valor do que os do software proprietário, mesmo que sejam pagos o mesmo valor. A TI trata de ROI (Retorno do Investimento), e é nesse ponto que o Software Livre realmente vence.

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