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Microsoft: Yahoo, interoperabilidade, SL/CA, padrões e estratégias

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compartilhar Twitte isso! Publicado em 23/02/2008 às 6:48

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Por Rafael Peregrino da Silva

É surpreendente o enxame de notícias envolvendo a Microsoft que assolam os meios de comunicação, especializados ou não, por esses dias. Não há campanha publicitária que pudesse ser mais bem sucedida. Interessante notar também, que todo esse alvoroço se deve, em grande parte, mais à aproximação de uma concorrência antes ignorada ou, literalmente, execrada pela empresa: o Software Livre e de Código Aberto (SL/CA), e dois de seus maiores usuários, Google e Yahoo.

Nossos amigos do IDGNow! entraram em contato conosco recentemente, no intuito de saber qual era a nossa opinião a respeito das recentes notícias sobre a abertura das APIs de produtos de grande volume de "circulação" da empresa, bem como das outras três principais mudanças de estratégia da maior empresa de software do planeta, mormente aquelas envolvendo o SL/CA, conforme publicado à exaustão em diversos veículos na web.

Como, devido às nossas restrições de agenda, acabamos por não ter a oportunidade de nos manifestar a esse respeito, mas tendo seguido de perto toda essa movimentação já há bastante tempo, houvemos por bem dedicar algumas linhas nesse sentido. Pode parecer a alguns que estejamos especulando um pouco, mas, de outro lado, nos parece difícil crer que as atividades da Microsoft nos últimos quatro anos não estejam sendo orquestradas de maneira conseqüente e no sentido de permitir à companhia açambarcar o seu quinhão de um mercado que ela apenas timidamente tocou, e no qual o Google se configurou "campeão de audiência": o dos serviços na Internet, especialmente aqueles subvencionados por publicidade.

Vale questionar, entretanto, se o alvo dessa estratégia é o cliente ou a concorrência, e queremos realmente crer, para o bem da Microsoft, que ela esteja definitivamente direcionando seus esforços para a criação de serviços de qualidade para a gigantesca base de usuários da Internet. A obsessão para desbancar um concorrente raramente traz resultados positivos.

Digressões à parte, a avalanche de notícias dos últimos quatro anos parece apontar realmente para um realinhamento estratégico da empresa, considerando a transição inevitável para um mundo totalmente conectado e eminentemente aberto, no que diz respeito à tecnologia da informação.

Yahoo!

Analisemos, primeiramente, a questão da aquisição do Yahoo. Acreditamos que ela deve acontecer, cedo ou tarde. Até o próprio Bill Gates fez questão de esclarecer por que a Microsoft precisa adquirir o portal. Não questionaremos aqui o teor das suas motivações, mas o fato é que, a combinação da base de usuários das duas companhias daria à Microsoft algo como 3/4 do mercado mundial de mensagens instantâneas (messenger), o mesmo valendo para os mercados de comunicação em grupo e de webmail.

Esses mercados são, também, vitais para o mercado de publicidade direcionada, algo em que – nenhum segredo aqui – o Google é líder inquestionável atualmente. Não se trata apenas de "obter uma excelente engenharia", como o fundador da Microsoft apontou no artigo acima referido, mas de obter uma base gigante de dados de usuários, que permita à empresa poder direcionar toda a sorte de propaganda ao cliente daqueles serviços, de acordo com o teor das mensagens veiculadas por eles. Hoje o Google dispõe do melhor serviço de buscas pois, em cada procura realizada, o usuário "diz" à empresa quais são seus interesses e, baseado neles, o AdSense imprime o anúncio adequado junto ao resultado da pesquisa. Isso ocorre porque (1) o Google tem, de longe os melhores algoritmos para classificar páginas na web e (2) a base de usuários fazendo buscas com o Google é imensa, e calibra os algoritmos com as entradas corretas. Com a aquisição da Yahoo a questão da base de dados estaria mais ou menos resolvida e não é segredo para ninguém que a Microsoft tem investido pesadamente em tecnologia para aprimorar seus algoritmos de busca, tal qual a Yahoo vem fazendo. Entretanto, ambas ainda não conseguiram atingir o grau de aprimoramento que o Google conseguiu.

Novell

Talvez o subtítulo acima pareça estar totalmente fora do contexto do nosso raciocínio, mas, após ter sobrevivido às idas e vindas do mercado de TI à época explosão da bolha da Internet e depois de alguns anos seguindo a movimentação desse mercado, no que concerne a aquisições e incorporações, passamos a reconhecer conseqüências em coincidências.

Um dos grandes obstáculos técnicos para uma possível aquisição da Yahoo pela Microsoft é o fato de que a base tecnológica de ambas era, há dois ou três anos, pouco interoperável, especialmente no sentido da Microsoft para o Software Livre, tecnologia amplamente utilizada pelo Yahoo. Até então, a maioria devastadora dos esforços – senão todos – nesse sentido ocorria no sentido inverso: da comunidade e das empresas de desenvolvimento de SL/CA, para que os sistemas e programas desenvolvidos por elas conseguissem se comunicar com o mundo proprietário.

Lembremo-nos de que, já nesse período, o Google JÁ era a grande pedra no sapato da gigante de Redmond. Assim, acreditamos que a estratégia da aquisição da Yahoo tem seus primórdios já naquela época, mas havia um grande problema a resolver: integrar a base tecnológica de ambas as empresas. E o know how para tanto faltava, pelo menos para um projeto dessa magnitude, à Microsoft. Seria até possível, mas absolutamente não recomendável, que a empresa repetisse o fiasco da migração do Hotmail do FreeBSD para tecnologia Windows®, algo que só começou a ser feito quase três anos depois da aquisição. Para que a base de dados de informações fornecidas pelos usuários do Yahoo pudesse ser usada de maneira eficiente, pelos dois lados, permitindo a criação de um sistema de publicidade web sensível a contexto mais eficiente e de base mais disseminada, seria necessário um esforço de interoperabilidade.

Na nossa opinião, essas podem ser as raízes das iniciativas de interoperabilidade da Microsoft. E o acordo com a Novell, no final de 2006, aparece como um acelerador nesse cenário. Segundo Ron Hovsepian, presidente da Novell, esse acordo teria nascido de uma idéia dentro da Novell. Se este foi realmente o caso, o senso de oportunidade da Microsoft merece aplausos. De lá para cá, a empresa auriu através do acordo um poderoso contingente de desenvolvedores para a empreitada. Para a Novell, o negócio injetou capital na unidade de Linux da empresa, o que também serviu para lhe conferir um fôlego adicional e um diferencial comercial frente à concorrência, algo que ficou certamente pelo caminho em face dos últimos anúncios.

Abertura de APIs etc.

O mais recente movimento da Microsoft vem, na nossa humilde opinião, coroar essa trajetória para o inevitável. Não é apenas uma questão de querer, mas sim de precisar se alinhar com o resto do mundo no que se refere a fair play, uso de tecnologia de código aberto e de padrões abertos, sob risco de ver comprometidos seus esforços para obter uma presença mais significativa na plataforma que representará o futuro da tecnologia da informação.

O trinômio Internet, desenvolvimento colaborativo e mobilidade, vai representar o fundamento para uma sociedade da informação mais justa e viável comercialmente, facilitando o acesso a todos os cidadãos e diminuindo o número de alijados da tecnologia.

Com os anúncios recentes, a empresa de Bill Gates também pode pôr fim às suas querelas com a União Européia, bem como posar de "boa moça" junto a parceiros e comunidades de desenvolvedores de SL/CA, aumentando, de quebra a base instalada do até então timidamente utilizado Windows® Vista, já que a grande maioria de desenvolvedores para sistemas Microsoft deverá preferir criar ou portar aplicativos para a nova plataforma da empresa – uma vez que as APIs do Windows XP não gozaram da benemerência da Microsoft, ficando de fora dos anúncios de produtos para o qual extensa documentação para desenvolvedores estará agora disponível.

Se não for muita Teoria da Conspiração de nossa parte, acreditamos que a aquisição da Yahoo se reduzirá realmente a uma questão de preço. E, a partir de então, poderemos esperar novas ações da Microsoft no mundo do SL/CA. Além disso, se tudo se encaminhou como descrevemos acima e continuar nessa direção, não será demais esperar que a empresa passe a sofrer também com as ameaças de utilização do seu arsenal de patentes contra o Software Livre: como grande usuária que passaria a ser, seria também dona de um "teto de vidro" similar àquele que criticou até agora. Seria o momento de rever se o modo como a empresa trata a questão das patentes de software não precisa também ser revisitado.

O futuro é aberto.

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